A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, Martha Batalha

Eurídice bem poderia ser minha avó. Senti isso desde as primeiras páginas de A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, escrito por Martha Batalha e publicado pela Companhia das Letras. Ambientado no Rio de Janeiro dos anos 40, a história conta como foi a vida da personagem, que tem sua trajetória marcada por fatos que a moldam segundo o querer de terceiros, nunca os seus.

Na infância, o sonho de tocar flauta vai por água abaixo por vontade dos pais, seu Manuel e dona Ana, que eram avessos a tudo o que era estranho a seus olhos. A filha tocar na Sinfônica?? Eu hein! Já casada com Antenor, o sonho de ser ter seu caderno de culinária publicado se torna ilusão com as gargalhadas do marido que não vê em seu projeto futuro algum.

O tempo passa e a costura e seu ateliê montado na sala de casa também vira fumaça quando Antenor fica doente e descobre o projeto, que vale dizer, fazia muito sucesso e tinha várias clientes pelos bairros do Rio. Como Eurídice tinha coragem de trabalhar desse jeito? E a casa, e as crianças? Jogadas às moscas, no pensamento do marido. Afinal, ele era o provedor e ela a dona de casa. Estes eram os papéis, muito bem estabelecidos pela sociedade naqueles tempos, e não poderiam ser mudados só porque Eurídice estava entendiada.

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O livro ainda desdobra a história de várias mulheres, vizinhas ou não da personagem principal, que também se veem moldadas (ou amordaçadas) pelos pensamentos e costumes de sua época. Cada um ali, seja homem ou mulher, tem seus motivos para levar a vida que leva. Seja por enfado ou apatia, sonhos não alcançados ou dedos das próprias mães, cada personagem revela um mundo a ser desvendado a cada página.

Todas as histórias de se entrelaçam de alguma forma e Martha Batalha consegue transformar Eurídice, Antenor, Zélia, Guida, Antônio e tantos outros em pessoas reais, que habitavam um sociedade que nos é estranha e que povoa nosso imaginário apenas pelas histórias antes de dormir que nossas avós contavam. São tão reais que podemos sentir suas dores e se incomodar com cada frustração ou sorrir com cada alegria.

Minha única ressalva para a edição que comprei são alguns erros de revisão, que afetam a compreensão em alguns momentos, porém não a ponto de prejudicar a leitura como um todo. Vale cada página lida para perceber que o que nós, mulheres do século XXI, conquistamos e ainda precisamos conquistar. Por você, por mim e por Eurídice, que bem poderia ser a sua avó.

Ficha Catalográfica:

Título: A Vida Invisível de Eurídice Gusmão

Autora: Martha Batalha

Editora: Companhia das Letras

Ano de Publicação: 2016

Gênero: Ficção brasileira

Número de Páginas: 188

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